segunda-feira, 28 de julho de 2008

EU VI UM MENINO


(Malu Monte)

Eu vi um menino
De olhos sem o brilho da juventude
Na pele rachaduras do tempo
As quais chamamos de rugas
Aquelas que alguns poetas em seus versos mostram se orgulhar
E, no entanto, homens e mulheres tentam a grande custo se livrar

Esse menino que me implorava colo
Cresceu e não se deu conta disso
Ao sofrer nem percebeu o que realmente é viver
Sobreviveu e amadureceu num mundo lindo que nunca chegou a ver

Eu revi esse menino...
De cabelos brancos mas ainda com sorriso puro de criança
Sentado em sua cama de jornal e vestido com seus trajes encardidos
Ele comia das migalhas que os outros lhe davam
Pisava no chão em que muitos cospiam
Mas que olhava-me como quem reconhecia alguém que outrora lhe dera um afago

Hoje, suas mãos já calejadas por um tempo
Em que pensava do trabalho adquirir o sustento
Fez-se um verdadeiro equilibrista na corda bamba da vida
Passeia por entre a bala perdida
Caminha anônimo em meio à multidão que por ele passa
Covarde aos olhos dos outros, no entanto, não tem medo de nada

Guerreiro valente por força da natureza
Aquele menino ainda ri da tristeza
Dribla o sofrimento com a esperança
De que a cada virada de esquina
Dará a volta por cima
Tal e qual pensava quando criança.


*Texto inspirado no personagem "O Mendigo"- programa "A Praça é Nossa" falecido recentemente e em todos os mendigos que estão espalhados por este grande Brasil.

CARA DE NÃO SEI O QUÊ


(Malu Monte)


Hoje eu acordei com “Cara de não sei o quê”
Tentei ouvir a voz do meu coração e ela estava muda
Busquei uma resposta dentro de mim e não obtive explicação

Isso acontece e não sei como falar
Mas às vezes tem dia que parece noite
Você se encara e logo pensa: _ Quem é esta pessoa que está a me olhar?

Pode parecer estranho, mas é quase como querer e não saber o quê
Viver e não saber pra quê
Fugir e não saber de quem

Ter saudade de algo que não viveu
Vontade de ir sem saber pra onde
Sentir frio num sol de 40º


É ter fome mesmo sem se estar com apetite
Olhar um cardápio sem saber o que escolher
Provar algo sem distinguir o seu sabor

Enxergar a vida toda em preto e branco
Entrar numa loja e não entender o que está a fazer por ali
Ah!...Deixa de história e põe essa cabeça pra pensar...

Vai dizer que nunca se sentiu assim?...
Com certeza você já ouviu falar em cara disso, daquilo ou de trelelê!...
Pois então...Definitivamente, hoje eu acordei com “Cara de não sei o quê”.